A vida através das palavras*

10 May

Já que vou falar de um livro sobre escritas íntimas e a questão autobiográfica, por que não começar com uma confissão? Mas não fiquem muito entusiasmados, não se trata de uma confissão sobre minhas secretas inclinações sexuais ou de uma exibição pública da parte mais vergonhosa de minha personalidade. Para isso, está meu diário, que continuará escondido na prateleira, atrás dos livros que já ninguém lê e que publicarei (talvez) em algum momento futuro para o deleite dos leitores e leitoras mais mórbidos (como eu mesmo).

Não, neste caso, trata-se de uma confissão mais simples e até banal, pelo qual peço desculpas antecipadamente. A confissão é esta: há alguns anos, desde que comecei meus estudos de pós-graduação em literatura hispano-americana em Bogotá e, depois, em literatura brasileira no Rio, venho sentindo que, em vez de me aproximar da experiência literária de anos anteriores (experiência tão profunda que me levou a abandonar outras possibilidades de vida, sem dúvida muito mais rentáveis e seguras, sobretudo desde a perspectiva de meus pais), essa experiência parece esbarrar agora em uma série de obstáculos e superstições, que condicionam ou pelo menos dificultam em parte esse encontro com “algo intimamente desconhecido” que era para mim a leitura.

Podem ser várias as razões para explicar isto: a extrema especialização dos estudos literários contemporâneos, um excesso de teorias em detrimento da leitura e discussão das próprias obras, ou simplesmente uma incapacidade minha para juntar o acadêmico com o vital da experiência literária. Não é este, com certeza, o lugar para aprofundar o tema. Mas fiz esta confissão precisamente porque os livros do crítico literário argentino, Alberto Giordano, me devolveram a fé que estava perdendo quanto à capacidade da crítica para aproximar-se da experiência literária, a capacidade da crítica de ser, por momentos, ela mesma literatura.

Os livros de Giordano misturam a rigorosidade do acadêmico e a flexibilidade do ensaísta, com a emoção e o afeto que produz a leitura, aspecto tão caro ao Borges da supersticiosa ética do leitor. Seu último livro publicado, El giro autobiográfico de la literatura Argentina actual (2008), continua os caminhos abertos em Una posibilidad de vida, Escrituras íntimas (Beatriz Viterbo, 2006), retomando alguns de seus objetos de estudo prediletos: diários, confissões e escritas de corte autobiográfico.

Neste pequeno livro de ensaios (o ensaio como tema e como forma é outra de suas obsessões e tema de um livro anterior, Modos del ensayo, Beatriz Viterbo, 2005), Giordano analisa o marcado giro autobiográfico que vem tomando a literatura Argentina recente, giro que se faria especialmente visível a partir do ano 2006, mas que poderia ser rastreado desde finais dos anos oitenta.

Esse giro estaria constituído pelo auge de escritas íntimas (diários, cartas, confissões) e blogs de escritores, mas também por relatos, poemas e até ensaios críticos que desconhecem as fronteiras entre literatura e vida real. Trata-se, para Giordano, de textos que se situam nas margens ambíguas da instituição literária e que impugnam esses limites, embora o façam, na maioria das vezes, mais por indiferença que por uma verdadeira vontade de ruptura com as determinações institucionais.

São textos, por outro lado, que reclamam uma pretensão de verdade, caso distinto das novelas autobiográficas que se enquadravam antes em um estatuto ficcional. Mas, inclusive no caso destas últimas, o que tem mudado em relação ao passado, não são tanto as características próprias dos textos autobiográficos, algo que já notava Beatriz Sarlo, senão suas condições de recepção atuais, o que faz com que as obras que usam vestígios da vida dos autores para construir um relato – algo que sempre se fez na literatura – tendam a ser lidas hoje como uma performance intimista, autêntica e honesta.

Um aspecto negativo desta cultura do íntimo, para Giordano, seria a perda da ambigüidade da literatura e do literário: o autor pode confessar o que quiser e expor-se quanto quiser, sempre e quando tenhamos a certeza que quem viveu e quem escreve são a mesma pessoa. Mas, apesar dos aspectos negativos associados à nossa atual cultura do íntimo – que não se restringe somente ao espaço argentino, senão também ao brasileiro e latino-americano – Giordano acredita que são este tipo de textos do giro autobiográfico os que representam o mais vigoroso da atual literatura argentina. Por quê? O que têm estes textos que tanto nos seduzem (pelo menos a ele e a mim)? A resposta de Giordano é a seguinte: nos seduzem porque representam a possibilidade de aproximar-se à fórmula cristalizada na frase: “O passo da vida através das palavras”.

As escritas do giro autobiográfico que ele comenta, como Dos relatos porteños, de Raúl Escari, ou Ómnibus, de Elvio Gandolfo, apresentam a vida como um processo em constante andamento, que começa cada dia sem uma orientação pré-determinada. São textos onde é possível encontrar essa experiência de algo intimamente desconhecido que se realiza nas palavras. Essa experiência pode se dar em textos culturalmente designados como literatura ou pode aparecer nesses textos ambíguos que fogem as classificações, como os diários, as confissões, as cartas etc.

A escrita intimista e prazerosa do próprio Giordano se desliza por textos recentes de Escari, Gandolfo, Pablo Pérez, Daniel Link, Maria Moreno e Alan Pauls, mostrando as características particulares que toma o giro autobiográfico em cada um deles e, ao mesmo tempo, deixando em evidência os afetos que ligam o crítico a essas leituras, desnudando suas próprias emoções e convicções de leitor.

Para quem procura, às vezes desesperadamente, como eu, uma crítica literária mais emotiva e menos supersticiosa, sem por isso esquecer o rigor de um leitor especializado, acredito que os livros de Giordano serão um achado interessante e instigador.

*Texto publicado originalmente no Jornal O Globo de Rio de Janeiro em 10 de outubro de 2009.

2 comentarios to “A vida através das palavras*”

  1. Diamanda Bronx mayo 11, 2011 a 15:20 #

    Interesante confesión: neuralgia causada por los estudios literarios actuales que nos alejan de la experiencia de lectura, del encuentro con aquello “intimamente desconhecido”. Necesitamos en nuestras facultades más Borges y menos Deleuze, más Melville y menos Derridá.

Trackbacks/Pingbacks

  1. La autenticidad humana del diario « La oreja de Holyfield - marzo 11, 2012

    […] superficialidad del diario parece brillar por momentos lo inaprensible de la existencia. Como dice Alberto Giordano, en la lectura de los diarios es posible experimentar de forma quizás más próxima que en […]

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s

A %d blogueros les gusta esto: